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Se eu te fizesse uma canção,

19/11/2017
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com o cuidado de não abrir demais o peito já rasgado, nada muito exposto e embaraçoso. Se eu te fizesse uma partitura para o seu piano, com notas que apenas respingassem nas teclas com a profundidade das badaladas de um sino de igreja, nunca o alarme de uma cavalgada desenfreada e exuberante. Música para salão, cenografia para intenções insinuadas com elegância, jamais os clubes de sombras onde apenas se balança o corpo num ardor frenético. Talvez assim eu soasse mais sincera. Mais composta, com certeza, e razoavelmente mais civilizada. Quem sabe até pudesse me olhar de novo – e me convencer a te reencontrar – sem sustos, depois de tanto jogo de cena, tanta fuga disfarçada em allegro. Todo este silêncio quase irreparável.

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No fim,

16/11/2017
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eu sempre acabo naquele boteco malparado na esquina. E é sempre uma tarde de terça-feira com as ruas varridas de ouro e agonia. Sempre A Montanha Mágica no rádio com chiado, os alto-falantes na lateral da mesa de sinuca afrontando qualquer coisa estática. Eles sempre me anestesiam, aqueles versos definitivos, na semi-escuridão a salvo dos excessos lá de fora. A sua lembrança, como sempre, me alcança bem ali, infalível, mas sem desvios de rota ou o cansaço pelo caminho. Sempre nesse momento, exatamente nesse momento, eu torno a rabiscar numas folhas todos os antigos disparates pueris que agora me comovem e doem. Como se ainda não fosse urgente, nem necessário.

Eu sempre esqueço que é um ardil, um looping de tempo mal disfarçado em que me deixo apanhar, fingindo medo.

Andava remoendo,

14/11/2017
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cismada. De repente sentiu uma lasca mais dura, um gosto de ouro explodiu na língua. Tentou morder, experimentar um pouco mais. Só conseguiu quebrar o dente, pobre marfim fabricado e inútil.

Uma palavra,

12/11/2017
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uma letra emendando na outra, misteriosamente, laboriosamente dando-se as mãos trêmulas no espaço das vontades subterrâneas, ali onde não existe tempo para equívocos.

A última grande febre veio numa primavera,

20/06/2016

39 graus. “Enquanto eu me calei resignado, e me contive inutilmente, minha angústia aumentou. Meu coração ardia-me no peito e, enquanto eu meditava, o fogo aumentava”, dizia o Salmo 39. Em Roswell, no Novo México, um austríaco rompeu a velocidade do som em queda livre, ao saltar da estratosfera, a 39 km da superfície da terra. Richard Hannay assistia a um musical em Londres quando ouviu o disparo de tiros. Correndo para a saída, conheceu uma mulher misteriosa e viu-se envolvido na trama de espionagem e assassinato do filme “Os 39 degraus”, de Hitchcock. Às 10h39, um ônibus saía de Daimiel com destino a Elda Petrer. “A maturidade, supondo que tal coisa existisse, era, em última análise, uma hipocrisia (…) Era preciso continuar, ou recomeçar ou terminar: ainda não havia ponte”, lia-se no capítulo 39 d’O Jogo da Amarelinha, de Cortázar. Obcecada pela época pré-guerra, a britânica Joanna Francis ainda vive como se estivesse presa em 1939, ano em que Adolph Hitler ganhou o Nobel da Paz e Sigmund Freud morreu. A idade mágica de 39 anos reúne os quatro mundos da Cabala (Atziluth, Briah, Yetzirah e Assiah) e representa a soma dos ciclos de vida dos principais planetas na Astrologia (3 anos do Sol + 4 anos de Vênus + 8 anos de Mercúrio + 9 anos da Lua + 6 anos de Saturno + 7 anos de Júpiter + 2 anos de Marte). O paralelo 39 liga Tianjin e o Kansas, terra de furacões impossíveis. E se você der a sorte de escolher a ostra certa num ritual havaiano no Píer 39, em São Francisco, em meio a leões marinhos, um carrossel duplo e uma loja especializada em produtos para canhotos, pode encontrar a pérola perfeita.

She needs a friend,

13/12/2015

ma belle

She needs a lie

She needs a open door

And a stairway

To the moon

She wants a lollipop, darling

She wants a dance

She wants to go through the mirror

And discover the other side

To forget

She’s writing a letter, baby

She’s listening

She’s painting his face, oh, so tired

And wearing his disguise

To love

She didn’t give the last kiss, sweet

She didn’t know

She didn’t believe in the oracle

And didn’t prepare dinner

Tonight

She needs a bless, ma belle

She needs a bliss

She needs a way to go out

And a Rayban and a Louboutin and a Sinatra

To pray

She needs a name

O verão estava nos seus olhos,

16/08/2015
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em nenhum outro lugar, e quando olhava pra gente o calor nos atingia em cheio com a promessa de paraísos irrealizáveis. Mesmo sabendo que jamais aconteceria, talvez porque jamais aconteceria, era agradável pensar nas manhãs azuis, as horas entregues à maresia, as palavras traduzidas e desfeitas pela areia, as mãos e corações disponíveis como ancoradouros, ideias sem corpo nem sombra dourando, queimando. Era um vício muito doce, por alguns instantes até mesmo uma cura, beber a ilusão espantosamente palpável dos seus olhos. E por mais que a gente reconhecesse ali, de certa forma, aquilo a que renunciamos – por temor ou por desconhecimento ou por fraqueza – bastava.