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O que eu guardei de você

04/02/2018
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não ficou registrado em fotografias. Nenhuma imagem congelada de flor e montanha e lamparina e lambe-lambe na praça.

O que eu guardei de você não veio agarrado na sola dos sapatos, no bojo de passos ligeiros de dança e de medo. Nada que uns tantos copos ou as anedotas em que me escondia pudessem sedimentar.

O que eu guardei de você teve de ser roubado das pequenas pausas distraídas, aqui e ali. Fermentou com uma mistura de intenções e expectativas, a presença quase acidental. Menos que uma espuma, capaz de voar no primeiro sopro. Mas teimou em ser permanente, e agora cresce nas muitas palavras que não cabem.

O que eu guardei de você me devora, um riso que escapa e entorta o caminho. O que eu guardei de você é uma bomba-relógio.

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Ainda não aprendi a voltar,

26/11/2017
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e me assusta parecer uma criança diante da janela embaçada do seu quarto, pedindo socorro, porque há muito tempo deixei de fingir que já fui essa criança. Não, você deve entender de outra forma. Se existe alguma intenção aqui, é a de uma confissão, apenas, sem mea culpa.

Ainda não aprendi a voltar, é só. Sou incapaz de refazer a geografia inventada pelos meus passos entre uma fuga e outra, uma diversão aqui, uma aposta furada ali para gastar o tempo. O tempo de uma dança, e tudo continua a se desmanchar.

Ainda não aprendi a voltar, mas se tivesse um pouco mais de honestidade, deveria admitir que nunca foi uma opção. Nunca haveria para quem voltar. Tenho dedos tortos, leves demais, e eles só me desenharam retratos imprecisos, memórias de que só se pode desconfiar. Dedos que se imaginam segurando um cigarro enquanto a boca expira a fumaça impossível. Um truque, uma forma de me livrar sem maiores dores do que não soube reconhecer ou nomear. Como todos os outros truques. Poser.

Ainda não aprendi a voltar, e na verdade o que me frustra é não conseguir cometer mais nenhuma insensatez. Nenhuma carta de amor escrita para provocar – sempre haverá cartas de amor, não minhas. Nenhum telefonema no meio da tarde para falar de banalidades – uma única palavra poderia expor a fragilidade de qualquer sentimento. Não, não haverá uma porta aberta num rompante, uma cadeira onde eu esqueceria a bolsa – jamais a mala de viagem pronta para se extraviar.

Se eu te fizesse uma canção,

19/11/2017
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com o cuidado de não abrir demais o peito já rasgado, nada muito exposto e embaraçoso. Se eu te fizesse uma partitura para o seu piano, com notas que apenas respingassem nas teclas com a profundidade das badaladas de um sino de igreja, nunca o alarme de uma cavalgada desenfreada e exuberante. Música para salão, cenografia para intenções insinuadas com elegância, jamais os clubes de sombras onde apenas se balança o corpo num ardor frenético. Talvez assim eu soasse mais sincera. Mais composta, com certeza, e razoavelmente mais civilizada. Quem sabe até pudesse me olhar de novo – e me convencer a te reencontrar – sem sustos, depois de tanto jogo de cena, tanta fuga disfarçada em allegro. Todo este silêncio quase irreparável.

No fim,

16/11/2017
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eu sempre acabo naquele boteco malparado na esquina. E é sempre uma tarde de terça-feira com as ruas varridas de ouro e agonia. Sempre A Montanha Mágica no rádio com chiado, os alto-falantes na lateral da mesa de sinuca afrontando qualquer coisa estática. Eles sempre me anestesiam, aqueles versos definitivos, na semi-escuridão a salvo dos excessos lá de fora. A sua lembrança, como sempre, me alcança bem ali, infalível, mas sem desvios de rota ou o cansaço pelo caminho. Sempre nesse momento, exatamente nesse momento, eu torno a rabiscar numas folhas todos os antigos disparates pueris que agora me comovem e doem. Como se ainda não fosse urgente, nem necessário.

Eu sempre esqueço que é um ardil, um looping de tempo mal disfarçado em que me deixo apanhar, fingindo medo.

Andava remoendo,

14/11/2017
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cismada. De repente sentiu uma lasca mais dura, um gosto de ouro explodiu na língua. Tentou morder, experimentar um pouco mais. Só conseguiu quebrar o dente, pobre marfim fabricado e inútil.

Uma palavra,

12/11/2017
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uma letra emendando na outra, misteriosamente, laboriosamente dando-se as mãos trêmulas no espaço das vontades subterrâneas, ali onde não existe tempo para equívocos.

A última grande febre veio numa primavera,

20/06/2016

39 graus. “Enquanto eu me calei resignado, e me contive inutilmente, minha angústia aumentou. Meu coração ardia-me no peito e, enquanto eu meditava, o fogo aumentava”, dizia o Salmo 39. Em Roswell, no Novo México, um austríaco rompeu a velocidade do som em queda livre, ao saltar da estratosfera, a 39 km da superfície da terra. Richard Hannay assistia a um musical em Londres quando ouviu o disparo de tiros. Correndo para a saída, conheceu uma mulher misteriosa e viu-se envolvido na trama de espionagem e assassinato do filme “Os 39 degraus”, de Hitchcock. Às 10h39, um ônibus saía de Daimiel com destino a Elda Petrer. “A maturidade, supondo que tal coisa existisse, era, em última análise, uma hipocrisia (…) Era preciso continuar, ou recomeçar ou terminar: ainda não havia ponte”, lia-se no capítulo 39 d’O Jogo da Amarelinha, de Cortázar. Obcecada pela época pré-guerra, a britânica Joanna Francis ainda vive como se estivesse presa em 1939, ano em que Adolph Hitler ganhou o Nobel da Paz e Sigmund Freud morreu. A idade mágica de 39 anos reúne os quatro mundos da Cabala (Atziluth, Briah, Yetzirah e Assiah) e representa a soma dos ciclos de vida dos principais planetas na Astrologia (3 anos do Sol + 4 anos de Vênus + 8 anos de Mercúrio + 9 anos da Lua + 6 anos de Saturno + 7 anos de Júpiter + 2 anos de Marte). O paralelo 39 liga Tianjin e o Kansas, terra de furacões impossíveis. E se você der a sorte de escolher a ostra certa num ritual havaiano no Píer 39, em São Francisco, em meio a leões marinhos, um carrossel duplo e uma loja especializada em produtos para canhotos, pode encontrar a pérola perfeita.