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A última grande febre veio numa primavera,

20/06/2016

39 graus. “Enquanto eu me calei resignado, e me contive inutilmente, minha angústia aumentou. Meu coração ardia-me no peito e, enquanto eu meditava, o fogo aumentava”, dizia o Salmo 39. Em Roswell, no Novo México, um austríaco rompeu a velocidade do som em queda livre, ao saltar da estratosfera, a 39 km da superfície da terra. Richard Hannay assistia a um musical em Londres quando ouviu o disparo de tiros. Correndo para a saída, conheceu uma mulher misteriosa e viu-se envolvido na trama de espionagem e assassinato do filme “Os 39 degraus”, de Hitchcock. Às 10h39, um ônibus saía de Daimiel com destino a Elda Petrer. “A maturidade, supondo que tal coisa existisse, era, em última análise, uma hipocrisia (…) Era preciso continuar, ou recomeçar ou terminar: ainda não havia ponte”, lia-se no capítulo 39 d’O Jogo da Amarelinha, de Cortázar. Obcecada pela época pré-guerra, a britânica Joanna Francis ainda vive como se estivesse presa em 1939, ano em que Adolph Hitler ganhou o Nobel da Paz e Sigmund Freud morreu. A idade mágica de 39 anos reúne os quatro mundos da Cabala (Atziluth, Briah, Yetzirah e Assiah) e representa a soma dos ciclos de vida dos principais planetas na Astrologia (3 anos do Sol + 4 anos de Vênus + 8 anos de Mercúrio + 9 anos da Lua + 6 anos de Saturno + 7 anos de Júpiter + 2 anos de Marte). O paralelo 39 liga Tianjin e o Kansas, terra de furacões impossíveis. E se você der a sorte de escolher a ostra certa num ritual havaiano no Píer 39, em São Francisco, em meio a leões marinhos, um carrossel duplo e uma loja especializada em produtos para canhotos, pode encontrar a pérola perfeita.

She needs a friend,

13/12/2015

ma belle

She needs a lie

She needs a open door

And a stairway

To the moon

She wants a lollipop, darling

She wants a dance

She wants to go through the mirror

And discover the other side

To forget

She’s writing a letter, baby

She’s listening

She’s painting his face, oh, so tired

And wearing his disguise

To love

She didn’t give the last kiss, sweet

She didn’t know

She didn’t believe in the oracle

And didn’t prepare dinner

Tonight

She needs a bless, ma belle

She needs a bliss

She needs a way to go out

And a Rayban and a Louboutin and a Sinatra

To pray

She needs a name

O verão estava nos seus olhos,

16/08/2015
by

em nenhum outro lugar, e quando olhava pra gente o calor nos atingia em cheio com a promessa de paraísos irrealizáveis. Mesmo sabendo que jamais aconteceria, talvez porque jamais aconteceria, era agradável pensar nas manhãs azuis, as horas entregues à maresia, as palavras traduzidas e desfeitas pela areia, as mãos e corações disponíveis como ancoradouros, ideias sem corpo nem sombra dourando, queimando. Era um vício muito doce, por alguns instantes até mesmo uma cura, beber a ilusão espantosamente palpável dos seus olhos. E por mais que a gente reconhecesse ali, de certa forma, aquilo a que renunciamos – por temor ou por desconhecimento ou por fraqueza – bastava.

Tanto suspiro malparado,

09/08/2015

tanto pandeiro descompensado, tanto perfume derramado, tanto sapato riscado, tanta estrela desafogada, tanta jura alardeada, tanto braço entrançado, tanto arroubo estocado, tanto, tanto, tanto…

Você olha para a rua,

02/08/2015

por trás do vidro sujo da janela, sentado no escuro, tentando ignorar a opressão do espaço mínimo e impessoal, o lençol esgarçado sobre a cama e o armário cheirando a mofo e o criado-mudo vazio e o quadrinho ordinário com uma oração certamente estampada em cada quarto vizinho.

Você refreia o impulso de sair e andar e andar e andar, porque já fez fez isso todas as outras noites, mal sabendo o que procurava, sem saber se estava fugindo, e só encontrou lojas depredadas, calçadas cheirando a mijo, homens olhando de lado esgueirando-se entre árvores iluminadas por lâmpadas verdes com um efeito kitsch assustador, senhoras nervosas nos pontos de ônibus e vagabundos profissionais numa profusão de pés sujos, e quando deu por si já estava de novo na porta do Hotel Esmeralda – todas as noites a mesma noite, o mesmo trajeto, uma espécie de gaiola para onde você se conforma em voltar.

Você janta no Restaurante Rei da Noite, só mais um no meio de muitos solitários de fisionomia perturbada apertando-se nas mesas e mastigando sem pressa a comida e o silêncio, e sente-se camuflado, livre da obrigação de representar qualquer papel social coerente com as regras, embora isso traga de volta a sensação de deslocamento.

Você se pergunta o que está fazendo aí, mais sozinho do que jamais esteve naquelas cidades de nomes estranhos e histórias fabulosas e temperos e paisagens sem qualquer conexão conosco, todos os contatos cortados, e você tenta se convencer de que precisa padecer, ir até o fundo do poço feito os poetas desgraçados do século 18 para sentir um mínimo pulso e farejar a vida na forma mais brutal que puder suportar, porque se sofrer o suficiente e aceitar de peito aberto todas as penitências, talvez aprenda a se perdoar e não lembrar, a amar e se fazer amar, para que saibam de alguma forma que você existiu e existiu por um motivo.

Você se consola pensando que mora bem ao lado da antiga estação ferroviária, a um quarteirão do Theatro Municipal e sua aura de luminosa inspiração, mas as luzes e a magnificência operística o assustam na mesma medida, e o seu  olhar foge para as vitrines exibindo vestidos de noiva bolorentos, foge para os grafites como se fossem pedaços de códigos com uma mensagem que você tenta desesperadamente absorver enquanto passa veloz de ônibus.

Você queima os braços no sol das manhãs muito quentes, o fone nos ouvidos, escutando Alabama Shakes, e de repente quer gritar como Brittany Howard, ou como Nina Simone, e fazer estremecer os muros e viadutos à medida que o seu peito estremece com uma dor cheirando a bares sujos e palcos mal-iluminados e verões sufocantes e vozes amordaçadas e corações despedaçados, uma dor com a qual você almeja comungar porque é mais sólida e faz mais sentido do que toda a sua vida, mas jamais poderia lhe pertencer, grito algum jamais lhe pertenceria.

Você argumenta falando na poesia das ruas e o que elas lhe dizem e lhe ensinam, como se andar por essas ruas noites e noites a fio a fizessem mais suas, domadas e reconhecíveis e catalogáveis, mas você estende a mão e só o que pode oferecer é uma angústia cega e colorida.

E você não sabe o que fazer com ela, porque ela não tem paradeiro.

“Na maioria das vezes,

26/07/2015

ela usava aquele vestido azul.” Era pouco menos que um retalho de história flutuando entre homens e mulheres de passagem sobre o viaduto, sobre a horda de luzes vermelhas e brancas (raivosas), à hora do rush, antes de colar nos ouvidos (impotentes). Ainda assim, fez-se mais palpável, mais sólida e mais (terrível) permanente que os amigos próximos ou o reflexo no espelho.

“Na maioria das vezes, ela usava aquele vestido azul.” O rapaz confidenciava ao colega num tom de assombro, quase desconsolo, enquanto caminhavam mais à frente. Eram talvez adultos, os dois. Mas à luz daquela revelação, fizeram-se pouco mais que adolescentes (perdidos) sem qualquer experiência, incapazes de compreender o quanto a simples obsessão expunha mais a tragédia das suas vidas ainda muito ralas do que os motivos dela.

“Na maioria das vezes, ela usava aquele vestido azul.” Voltava sempre ao mesmo ponto. Era uma obsessão, sim, e era (perigosa) bem mais que isso, porque imiscuiu-se em todo pensamento, a frase que se repetia, a mania, os seus motivos (mutáveis). Ela encontrou ali uma forma de se proteger e ao mesmo tempo impor sua vontade, escapando assim ao jugo da normalidade com seus tantos códigos de conduta e etiquetas e ações e reações (previsíveis). Por capricho, fez-se imponderável, até não se saber mais nada dela além do vestido azul, até ocupar toda a noite com o seu (maldito) vestido azul.

Ali adiante,

19/07/2015

a rua dorme enroscada no primeiro sol, preguiçosa, estendida sob os vira-latas enrodilhados nos próprios passos ainda não dados, os fantasmas dos seus latidos boiando num sono sem sonhos.

Ali adiante, todas as janelas ainda estão fechadas, a madeira das portas retintas em violentas cores absorvendo o impacto súbito da luz, e lá dentro adivinha-se a sombra fresca, um copo repousado ao lado da poltrona, um rádio chiando canções de amores felizes.

Ali adiante, a miragem de uma outra cidade, o contorno apenas pressentido das montanhas de Minas muito além dos telhados que estalam ao sol, a muralha invisível e despedaçada em algum lugar confinando a valentia de Granada, a memória das mesas na calçada e a bebida lentamente esvaziada numa conversa que se prolonga e os acasos alegres no descompasso de Budapeste ou Paris, o limiar da praia jamais ultrapassado e o cheiro inquietante da maresia.

Ali adiante, o medo à espreita, rondando o passo que vacila na direção de um abismo apenas suposto, o caminho imponderável inflado de palavras e escárnio e desafio, a saudade reinventada como subterfúgio.

Ali adiante, a espera inútil pelo ônibus, pelo trem, pelo cometa, e o relógio adiantando-se cada vez mais rápido, para trás.