Às oito horas da noite,
o porteiro do prédio de escritórios gasta a pausa para o jantar arrancando um jazz do trompete, no seu cubículo. É esta a cena - ridiculamente real! – que não me sai da cabeça.
Não é só para lembrar de você,
mas o seu doce preferido, e as músicas que te doíam, e o metrô, e as expressões que nunca ouvi de outra pessoa servem agora para refazer um certo retrato meu, que insiste em se perder.
Esta não sou eu,
e, apesar disso, também sou o que é velho nessas montanhas. Os movimentos e caminhos esquecidos. Os passos que se repetem sem saber. Sou a aridez na superfície. As cores terrosas. O manancial escondido sob a terra, velado na escuridão. Sou o que resiste. O que espera. O que não tem pressa. O que se deixa redesenhar. O que permanece por trás do jugo do tempo. O que desliza pelas pontas dos dedos do vento. O que aconchega e consola num abraço morno de pedra. Sou a dureza do diamante espelhando o fogo de cem mil estrelas mortas – tão próximas! Sou a imensidão adormecida, ensinando o medo de ficar.
Por definição,
Christina é sempre a segunda. A que não aparece porque não faz questão. A que fica pela metade, a inicial, a letra solta, o código fácil. Christina é a que sorri no espelho, a que sopra incêndios no seu ouvido. A que tem ânsia de ir para Barcelona, para Los Angeles ou para a feira da esquina. A que precisa não estar aqui. Christina quer destruir - mais uma vez - tudo em que sempre acreditou e que fingiu amar. Christina procura o êxtase na entrega, o amor no sofrimento, a dança na queda. Mas no minuto final você foge. Você tem medo da entrega, porque sabe que toda entrega é um jeito de morrer. E você tem medo da morte. E não deixa Christina viver.
Um pouco de cor local,
como você pediu: ontem, uma garota carregava o esqueleto negro de um guarda-chuva, num andar assim irreverente-dançante-equilibrista sob o céu azul em fogo. Pura zombaria, você sabe, jogo de cena para desfeitear a esperança de felicidade que os casacos cinzentos protegem no calor dos cafés. Quem nos salvou, a todos, foi o sanfoneiro que apareceu à noite numa esquina, como se estivesse toda a vida à luz daquele poste, enfeitiçado pela mesma canção. Por una cabeza, todas las locuras. Su boca que besa, borra la tristeza, calma la amargura. Nem me lembro mais o que pensava, se alguma angústia. De repente a noite era vermelha, pero si un mirar me hiere al pasar, como a minha saia vermelha, sus labios de fuego otra vez quiero besar, como as notas impetuosas, vermelhas, que ele arrancava dolorosamente da harmônica. Vermelhas, vermelhas, pelo resto do caminho!
Às vezes,
eu só ando por aí, atulhando o coração com o concreto da paisagem. Às vezes uma ou outra canção antiga me escapa da boca no meio da rua, em alto e bom som, e sobressalta os passantes. Às vezes presto atenção no desamparo das pessoas. Às vezes experimento a felicidade no gosto de um chocolate ou de um sorriso. Às vezes a gente se esbarra em algum trecho do caminho, e se reconhece na mesma ânsia. Às vezes nossas mãos se enlaçam por um momento – só um momento, porque há palavras demais, saudades demais, histórias demais, dores demais para podermos nos amparar. Às vezes não quero amparo. Às vezes sinto um amor tão grande pelos amigos, tão grande, que fico com ganas de me declarar, provocar um riso, fazer um carinho, dar um abraço, dizer que estou aqui. Às vezes sua presença é tão maior, que me encolho dentro de mim. Às vezes tenho medos enormes – medo de sofrer, medo de ser esquecida, medo de saber que deixei as pessoas mais importantes da minha vida escaparem, medo de não viver antes de morrer. Às vezes me esqueço num solo de guitarra do Chuck Berry, e por dois ou três minutos sou livre. Às vezes aposto na vitória e encaro o destino, de peito aberto. Às vezes penso em você – o seu rosto, o som familiar da sua voz, um gesto que faria na minha direção se estivesse aqui – e jogo fora todo o concreto entulhado no coração, e até esqueço que é só um momento.
Tudo bem,
sei que você está se perguntando se fiquei feliz em te ver. É difícil definir… De repente você estava lá, um rosto amigo que há uns duzentos anos tinha me arrancado os sorrisos mais largos, antes de sumir sem se preocupar em explicar que aquela minha certeza, a de que seríamos amigos para sempre, acabaria evaporando qualquer dia desses. Você reapareceu um pouco antes disso, talvez minutos antes – é preciso admitir. Nesse meio tempo, eu guardei coisas demais pra te contar, coisas que só queria compartilhar com você e que só você conseguiria dividir. Mas quanto mais esperava a chance de te contar, mais fortes ficavam os meus silêncios. Cheguei a fantasiar que as palavras se desprendiam de mim e chegavam até você flutuando no ar, no vapor do café, antes mesmo que eu precisasse articulá-las. Comecei a ter medo de não restar mais ninguém para quem contar, um medo de tudo se tornar ridículo demais para ter algum interesse, até cair no esquecimento. Medos, medos, medos… E de repente você estava lá, o rosto amigo pra quem eu guardei tanto, sem me dar conta do quanto estava sozinha até ali. Te ver, e me rever nos seus olhos, extrapolou qualquer sorriso de que eu fosse capaz. Chorei no seu ombro porque era inevitável, porque só assim todas aquelas palavras se traduziam. Choro de quem volta para casa, mesmo que só para ir embora outra vez. Se isso define ”felicidade”… bem, quem sabe você pode responder melhor do que eu.
PS: ontem, me surpreendi cantarolando de novo aquela música que era um dos meus “refúgios” secretos. Lembra? Acho que é isso – por enquanto.
